QUANTA EXPECTATIVA!

A chegada de Padre Jonas Abib no seminário em Lavrinhas

Algumas datas atravessam uma história e permanecem vivas na memória de uma comunidade. Para a Canção Nova, 3 de setembro de 1949 é uma delas. Foi nesse dia que aconteceu a chegada de Padre Jonas Abib a Lavrinhas (SP). O início de uma experiência que faria parte de sua caminhada de formação e de sua história vocacional.

Décadas mais tarde, essa passagem por Lavrinhas ganharia um significado ainda mais profundo. Foi ali que Padre Jonas viveu experiências importantes de sua juventude e formação, antes de se tornar sacerdote e, posteriormente, fundador da Comunidade Canção Nova.

A seguir, reproduzimos um trecho do livro O Padre – A história de vida de Jonas Abib, obra que reúne aspectos da trajetória do fundador da Canção Nova. O relato apresenta, com detalhes, as lembranças de Padre Jonas sobre a viagem, a chegada ao seminário salesiano e os primeiros momentos de sua vida como seminarista:

O trem leva o menino…

Na tarde do dia 3 de setembro de 1949, um sábado, Jonas entra para o seminário, com 12 anos de idade. O pai o acompanha na viagem de trem que o leva até Lavrinhas, uma pequena cidade do Vale do Paraíba, a 220 quilômetros de São Paulo. “E eu estava numa casa de Dom Bosco”, lembra Padre Jonas. “E mais: eu seria um sacerdote com o carisma de Dom Bosco!”

Pela Estrada de Ferro Central do Brasil, lá vai o menino, com o pai do lado, “muito sério”, como conta o Padre Jonas, “cumprindo o papel de acompanhar o filho pequeno”. Vez ou outra, Jonas cochila por um momento, agitado pelo chacoalhar da locomotiva e pelo barulho ininterrupto. Depois desperta e, pela janela, observa a paisagem, com o pensamento distante. Padre Jonas lembra que não sofria tanto naquele momento, mas sabia que uma vida nova estava para começar. “E também sabia que iria sentir muitas saudades da família.”

Quase dez horas depois de deixarem São Paulo, chegam à estação de Lavrinhas. Descem do trem. Sérgio agarra a mala, pergunta a alguém por ali como chegar até o seminário, e os dois avançam a pé na direção apontada. Uns vinte e tantos minutos depois, eis que se descortina para o menino uma imagem que ele, até a morte, jamais esqueceria.

“Meu Deus, quanta expectativa!”

“Em meio a um denso arvoredo, quase um bosque, quase um parque, lá estava o seminário salesiano”, narra Padre Jonas. “Meu Deus, quanta expectativa! Quanta vontade de seguir aquela vocação!”, ele diz. E repete mais uma vez, nesse contexto, não se lembrar de momento algum da vida em que tivesse perdido ou abandonado o desejo de ser padre.

“Os salesianos me receberam com um acolhimento digno de Dom Bosco”, continua Padre Jonas, e ao dizer isso está se referindo ao fato de que, para o fundador dos Salesianos, a acolhida, a recepção situava-se entre os gestos mais importantes numa casa salesiana. O porteiro, na visão do santo fundador, ocupava um lugar de honra, entre os mais dignos. Em Lavrinhas, naquele dia, o próprio diretor da casa, padre Hugo Neves, fez as vezes do porteiro e apareceu para abraçar o menino e fazer festa:

“A gente estava andando e avistando o colégio, bem na frente. Foi muito bonito, quando eu cheguei. Alguém avisou ao diretor, e ele veio ao meu encontro, numa escadaria grande, que hoje ainda existe – é uma outra, mas no mesmo lugar. Ali nos encontramos. E o diretor me abraçou, deu boas-vindas e fez festa. E eu já me senti em casa. Valeu a pena ter vindo, pensei.” 

A primeira noite de Jonas no seminário

Colégio São Manoel, Lavrinhas (SP) à época da chegada de Pe. Jonas Abib.

Colégio São Manoel, em Lavrinhas (SP), à época da chegada do Pe. Jonas Abib.

Pai e filho são conduzidos em seguida à casa para os hóspedes, ao lado da escadaria, mas logo alguém chega para levar o menino até um dos dois dormitórios, aquele que era destinado aos seminaristas dos primeiros anos do ginásio. A ama segue junto. “Esta é a sua cama”, foi indicado a Jonas. “E este é o seu armário.”

Então, o novo seminarista é deixado ali para tirar as coisas da mala e colocar tudo direitinho no pequeno móvel entre o leito do vizinho e o dele: as camisas, as calças, os chinelos, as meias, os calções… A pasta de dentes, a escova e o sabonete eram para serem colocados na parte superior, menor. Um dos sacos para a roupa usada ficaria pendurado aos pés da cama.

“Eu estava radiante. Queria muito ficar. O lugar era agradável, belo na sua austeridade. Tudo parecia encantador. Para chegar até ali, quanto sacrifício!
Depois, voltei à portaria, para ficar com o meu pai. Vi no olhar dele o alegre consentimento para eu vivesse a minha vocação e, ao mesmo tempo, a sombra triste e saudosa da despedida que se aproximava.”

Toca o sino, pontualmente, às 18 horas, e alguém vem buscar Jonas para a janta, enquanto a de Sérgio é servida ali mesmo, na casa dos hóspedes. (…) Os mais de 120 seminaristas rezam antes da refeição. A mesa em que o recém-chegado toma assento – eram de seis a oito lugares -, como as demais do imenso refeitório, tem o seu encarregado, o chamado “decurião”, “uma espécie de chefe, que cuidava de tudo, inclusive das conversas, para evitar qualquer atropelo”, explica Padre Jonas.

– E quem era o chefe da nossa mesa? Era o Guedes, que acabou sendo meu melhor amigo – conta o padre. (…)

A surpresa de Jonas durante a missa

Domingo, bem cedo, pela manhã. O sino toca, é hora de acordar. O assistente do dormitório bate palmas e diz: “Benedicamus Dominum!” (Bendigamos ao Senhor!), ao que os seminaristas respondem: “Deo Gratias!” (Graças a Deus!).

Como era domingo, os seminaristas se dirigiram nesse dia à capela para a missa das 7 horas. Só então veio a hora do café da manhã. No intervalo, antes da segunda missa, Jonas foi se encontrar com o seu pai.

Pe. Jonas (15 anos) e seu pai Sérgio em Lavrinhas (SP), 1952

Veio a missa das 9 horas, e qual não foi a surpresa do menino ao ver Sérgio entrar na fila para receber a Comunhão. Os olhos de Jonas brilharam de emoção. O que será que teria acontecido? Naquele momento, o filho não tinha condições de saber, e nem muito menos de avaliar o significado do que estava se processando na vida do seu pai, a partir dali e até o fim de seus dias, em termos de sua fé cristã. Algo divino, maravilhoso! Um milagre! Foi sempre assim que Padre Jonas leu os sinais da ação divina ao longo da história de sua vida.”

O pai que se confessa e comunga

No capítulo “O pai de Jonas se confessa e comunga”, presente em páginas posteriores do livro O Padre, são apresentados detalhes sobre a mudança que aconteceu na vida de Sérgio Abib a partir daquele dia. Sua relação com a religião e com a Igreja mudou completamente. O pedreiro, reconhecido por sua dignidade e honestidade, tornou-se também um exemplo de fé e de vida cristã para sua família.

 

** Trecho extraído do Livro O Padre – A história de vida de Jonas Abib — Adquira Clicando AQUI.

 

 

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