OU SANTOS, OU NADA!

Um imperativo de santidade

A frase “Ou santos, ou nada!” é mais que uma expressão, é mais que um lema, é um projeto de vida, um imperativo de santidade. Para compreendermos essa afirmação, convém recordar as circunstâncias em que padre Jonas Abib fez esse apelo a toda a Comunidade Canção Nova.

Era o dia 21 de junho de 1991, portanto, há 35 anos. Padre Jonas Abib e os membros da Comunidade Canção Nova viveram a dolorosa experiência de enterrar a Izabel Cortez, primeira consagrada da Comunidade que veio a falecer. Izabel era uma missionária muito alegre e dinâmica. Sua morte ocorreu em decorrência de uma experiência traumática de ameaças contra a integridade de sua vida por parte de alguns homens que invadiram a rádio Canção Nova em São Gonçalo dos Campos (BA). Graças a Deus, eles não fizeram nada contra ela, mas, por ser acometida de diabetes, aquela situação provocou sérias complicações em sua saúde, resultando na sua morte.

A sua perda foi muito sentida por toda a comunidade e, em especial, por padre Jonas que, naquela ocasião, vivia a triste experiência de enterrar a sua primeira filha espiritual.

Santidade: o imperativo que marcou a Canção Nova

Contudo, nos momentos mais dolorosos, a fé e a confiança em Deus podem fazer nascer frutos maravilhosos. E esse foi o caso. Padre Jonas testemunha que, durante a missa funeral, ao proferir a homilia, sentiu-se impulsionado por Deus a declarar a toda a Comunidade: “Ou santos, ou nada!”. Era um ultimato, um imperativo de santidade que Deus colocava em seu coração para todos os seus filhos e filhas espirituais. Essa declaração teve profundas repercussões em toda a comunidade, gerando grandes mudanças daquele dia em diante. Foi um divisor de águas. Creio que seja oportuno aprofundar o que significam essas palavras de padre Jonas.

À época do falecimento de Izabel Cortez, a Comunidade já tinha completado doze anos de existência. Foram doze anos de caminho formativo em vista da evangelização e da santificação pessoal, com a missão de anunciar ao mundo um Deus vivo e vivido. Não se tratava de uma teoria, mas de promover o encontro pessoal com Jesus que transforma as nossas vidas. Mas as circunstâncias do falecimento desse primeiro membro da Comunidade foi, antes de tudo, um apelo ao próprio fundador para que avançasse no entendimento do que significa concretamente a busca da santidade. Impelido por esse convite que Deus lhe fazia, ele decidiu fazer um retiro espiritual por cerca de 40 dias, a fim de silenciar e colher as indicações de Deus para toda a Comunidade.

Padre Jonas retirou-se, então, no Mosteiro de Belém, em Guaratinguetá (SP). Como ele mesmo testemunha: “Lá, eu orei, me humilhei, me arrependi, revi os acontecimentos à luz da Palavra, ouvi as pessoas, debrucei sobre os nossos escritos e foi lá que, como frutos, brotaram estes documentos que se seguem” (Abib, J., Nossos Documentos, pág. 115).

As retomadas e o caminho concreto de santidade

Esses documentos aos quais ele se refere são escritos espirituais que escreveu aos membros da Comunidade, nos quais apresenta um itinerário de santidade, à luz da Palavra de Deus e da doutrina da Igreja. A esses escritos ele chamou de Retomadas, pois, ao longo dos doze anos de existência da Comunidade, Deus já lhes havia inspirado as regras de vida. Mas, para aquele tempo, era preciso retomar com radicalidade a sua vivência.

O ponto de partida é a vida de oração, pois sem relacionamento com Deus não há santidade. Essa vida de oração se expressa na fidelidade ao estudo bíblico, à oração do rosário, à participação quotidiana da Santa Missa, à busca do sacramento da confissão, à adoração eucarística etc. São realidades às quais todo cristão é chamado a viver, mas que, num contexto de comunidade, se tornam indispensáveis como meios e fontes de intimidade com o Senhor.

Além disso, a santidade também pede uma vida ascética, por isso padre Jonas escreveu sobre as maneiras de como se deve jejuar à luz das indicações da Igreja. Outro aspecto dessa santidade consiste na total confiança em Deus, que conduz a nossa vida e provê o necessário. Daí a importância do abandono à Divina Providência.

Um legado escrito

Devido à importância da busca da santidade, não só para membros da Comunidade, mas para todo o povo de Deus, padre Jonas publicou, ao longo de sua vida, diversos livros que oferecem um itinerário espiritual que tem como meta responder ao apelo de Deus: “Sede santos, porque eu sou santo” (Lv 11,45).

O tema da santidade aparece em praticamente todos os seus livros, mas existem alguns que ele escreveu com esse enfoque específico e que recomendamos a sua leitura. São eles: Caminho para a santidade, Geração PHN, a série Combatentes (uma coleção de 6 livros, nos quais ele reflete sobre o crescimento nas virtudes: Combatentes na Alegria, Combatentes na Esperança, Combatentes na Fé, Combatentes na Provação, Combatentes no Amor, Combatentes no Perdão).

Além desses livros, destacamos também alguns pequenos livros que trazem indicações práticas para a vida ascética: Práticas de Jejum, Confessar-se como e porque e Retiro da boa morte.

“Ou santos, ou nada!”: um compromisso para toda a vida

Como membro da Canção Nova há quase 26 anos, posso testemunhar que a santidade não era só um assunto que padre Jonas apreciava e repetia em suas pregações. De fato, tornou-se para ele um lema de vida, um anseio de provocar nos membros da Comunidade e em todo o povo de Deus esse desejo de santidade. Afirmar “Ou santos, ou nada!” de maneira comunitária, e “Ou santo, ou nada!”, de maneira pessoal, significa comprometer-se com o Evangelho, assumir com própria vida a vocação se santificar-se, como resposta ao Deus que é amor, e que nos convida a amá-Lo efetivamente, por meio de pensamentos, palavras e atitudes que demonstram esse amor e que frutificam no amor ao próximo.

Que na comemoração desses 35 anos da proclamação do “Ou santos, ou nada!”, sejamos reinflamados com esse desejo de santidade que moveu o coração de padre Jonas e de tantos santos e santas que, ao longo de mais de dois mil anos de história do cristianismo, testemunham que a santidade não somente é possível, mas indispensável para a nossa vida de homens e mulheres de Deus.

Deus abençoe você!

Sacerdote da Comunidade Canção Nova há mais de 26 anos. É mestre em Teologia Espiritual e atualmente é doutorando em Teologia Espiritual pela Pontificia Università della Santa Croce. Recentemente foi eleito Formador Geral da Comunidade Canção Nova.

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