Profeta Jeremias: vocação, conversão e a missão de formar o Mundo Novo

O que realmente define um profeta? Não é apenas sua capacidade de falar em nome de Deus, mas sua vida totalmente entregue, moldada e conduzida por Ele. Ao olhar para a história do profeta Jeremias, percebemos que sua missão continua atual — e profundamente necessária.

Neste artigo, você vai compreender como a vida de Jeremias ilumina a vocação cristã hoje, especialmente à luz da espiritualidade vivida na Canção Nova.

Imagem gerada por IA do profeta Jeremias olhando a cidade de Jerusalém destruída.

Imagem gerada por IA do profeta Jeremias olhando a cidade de Jerusalém destruída.

Quem foi o profeta Jeremias?

Jeremias é, sem dúvida, o profeta cuja vida conhecemos melhor. Isso acontece, em primeiro lugar, porque diversos textos relatam as dificuldades e situações que ele enfrentou. Em segundo lugar, porque ele não se limitou a transmitir a Palavra de Deus: também nos deixou suas próprias palavras, suas dúvidas, inquietações e medos. Por isso, sua personalidade torna-se uma das mais marcantes de todo o Antigo Testamento.

Um chamado que nasce na fraqueza

Jeremias foi um dos maiores profetas, mas, como acontece com muitos de nós quando somos chamados, ele não se sentia atraído por essa missão. Pelo contrário: sentia medo, se via incapaz e despreparado. 

E a missão confiada a Jeremias não era simples. Ele deveria transmitir a Palavra de Deus em um dos períodos mais difíceis e trágicos da história do povo: os anos que se seguiram à destruição de Jerusalém.

Ainda assim, Deus não aceita nenhum tipo de desculpa porque Ele não escolhe os mais preparados — Ele prepara os escolhidos.

Essa realidade levou o povo a abandonar Deus, trocando a fonte de águas vivas por cisternas rachadas (cf. Jr 2,13). O cenário era de profundo desânimo: cidades despovoadas por causa do exílio, economia fragilizada e falta de unidade política.

Jeremias e o discernimento da Divina Providência

Mas é justamente nesse contexto que Jeremias vive uma das experiências mais marcantes de sua vida. Seu primo Hanamel aparece no átrio da guarda pedindo que ele compre um campo em sua terra natal, Anatot. À primeira vista, isso soa completamente absurdo: Jeremias havia passado anos anunciando a ruína de Jerusalém e o exílio — aquele era, claramente, o pior momento possível para investir em terras.

No entanto, Jeremias reconhece nesse acontecimento um sinal de Deus, carregado de esperança. O sofrimento do povo não seria o fim. Haveria retorno, restauração e abundância: “serão comprados campos nesta terra… porque mudarei sua sorte” (cf. Jr 30–33).

A proposta feita a Jeremias poderia até ser interpretada como um “desvio” do caminho do Senhor, ou mesmo como uma sedução do mundo.

Afinal, em meio a uma crise tão grande, investir em terras não parecia fazer sentido humano — seria como tentar garantir o próprio futuro em um cenário de total instabilidade.

Mas Jeremias já havia se entregado a Deus há muitos anos, e sua decisão, mesmo em meio a tantos sofrimentos, permanecia firme. Ele não se deixou seduzir, porque soube discernir ali a voz de Deus.

Deus fala através dos fatos, mas é preciso discernir

E é exatamente aqui que a luz do ensinamento do Padre Jonas ilumina ainda mais essa atitude: Deus fala através dos fatos, mas é preciso discernir. Como ele nos recorda, “tudo na nossa vida é providência. […] você não fez esse investimento de abrir mão de ganhar dinheiro e de garantir o próprio futuro por qualquer coisa; Deus lhe deu a graça de abrir mão de tudo por um bem maior.”

Assim como Jeremias, que não buscou segurança humana, mas confiou na providência divina, também nós somos chamados a discernir além das aparências e reconhecer, até nos acontecimentos mais improváveis, a ação de Deus conduzindo a nossa história.

Resumindo sua mensagem, podemos dizer que Jeremias fala a dois grupos: os exilados e os que permaneceram em Jerusalém.

E, por causa da sua missão, Deus lhe concedeu uma lucidez política impressionante — muitas vezes maior do que a dos governantes de sua época.

A lógica de Deus versus o sistema do mundo

Lembro-me de tantas vezes que o Padre Jonas alertou, com clareza e lucidez, sobre o ‘sistema do mundo’. Pregações feitas ainda na década de 90 e no início dos anos 2000 continuam surpreendentemente atuais.

E é justamente isso que nos ajuda a compreender melhor a postura de Jeremias. O que o diferenciava não era apenas uma espécie de sensatez humana ou visão estratégica. O que realmente guiava sua vida era a vontade de Deus. Aos olhos de muitos, suas atitudes poderiam até parecer cálculo ou estratégia; na realidade, eram expressão de obediência.

Padre Jonas sempre insistia nisso: não se trata de agir segundo a lógica do mundo, mas de discernir e seguir a lógica de Deus, mesmo quando ela parece incompreensível.

Isso acontece porque o verdadeiro motor da vida profética é a comunhão com Deus. A missão do profeta nasce de um chamado pessoal, íntimo, mas não se fecha em si mesma — ela se realiza no meio da vida concreta do povo, no cotidiano, na história, nas decisões reais.

A missão do profeta: formar o Mundo Novo

Por isso, o profeta conduz o povo à fidelidade, interpretando os acontecimentos à luz da ação de Deus. Jeremias precisou desenvolver um olhar atento para discernir, dentro da própria história — inclusive política —, o plano de Deus e, a partir disso, orientar o povo.

E é exatamente nessa direção que o Padre Jonas nos formou. Suas pregações mostram que a missão do profeta não se limita a compreender o mundo e anunciar a vontade de Deus, mas vai além: consiste em formar homens novos para o Mundo Novo — homens renovados, transformados, reconduzidos à sua identidade original, à santidade para a qual foram criados.

Como ele mesmo ensina, trata-se de formar para o “Mundo Novo”: “novas estruturas, novo sistema de vida, nova ordem. Um mundo dentro do projeto inicial de Deus.” (cf. ND n. 608)

Por isso, aquilo que muitas vezes pode parecer resistência aos avanços externos — seja na política, na economia ou na sociedade — não nasce de rigidez ou fechamento, mas de fidelidade ao projeto inicial de Deus. É a resposta de quem busca permanecer alinhado ao que Deus está revelando em cada tempo.

Quando Jeremias chama o povo à conversão, não se trata de um discurso moral. É uma necessidade vital: somente assim o povo poderia permanecer aberto ao futuro de Deus.

O profeta e sua missão no mundo

Outro ponto fundamental do profeta: não cabe a ele tomar decisões políticas — essa é responsabilidade dos governantes.

Mas é papel do profeta lembrar que nenhuma decisão pode ser feita ignorando os valores humanos e sociais iluminados por Deus.

Por isso, ao longo da história, vemos os papas fazendo esse mesmo movimento: dirigindo-se aos governantes, pedindo o fim das guerras, denunciando injustiças e iluminando questões sociais, econômicas e tecnológicas.

Um exemplo recente aconteceu no domingo de Páscoa, quando uma mensagem do Papa Leão XIV foi transmitida na televisão no Líbano.

Ele encorajava os que sofrem com a guerra a não desanimarem, lembrando que nenhuma oração, gesto de solidariedade ou até mesmo “nenhum suspiro de cansaço” é perdido.

E você? Vai continuar olhando a realidade apenas com critérios humanos ou vai se deixar conduzir pela lógica de Deus?

Talvez o Senhor também esteja te chamando — não porque você está pronto, mas porque Ele quer te formar um profeta para os nossos tempos.

Tenha coragem de responder.

 

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Graziele R. Lacquaneti é missionária da Comunidade Canção Nova há mais de 30 anos, celibatária consagrada e formada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atualmente é pós-graduanda em Sagradas Escrituras e coordena o setor de Produção Digital de Conteúdos Formativos da Comunidade Canção Nova, atuando na evangelização e formação cristã por meio das mídias digitais.